segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Academia de Letras de Teófilo Otoni - ALTO


O poeta potiguar AMALRI NASCIMENTO (José Amalri do Nascimento), natural da cidade de Brejinho/RN, radicado no Rio de Janeiro, foi diplomado Membro Correspondente da ACADEMIA DE LETRAS DE TEÓFILO OTONI - ALTO

Por indicação do Comendador e Acadêmico Paulo de Oliveira Caruso, Amalri Nascimento foi eleito pela unanimidade dos votos dos membros do Conselho Consultivo e passou a integrar o corpo acadêmico daquela digna Instituição Literária de Minas Gerais.

Não podendo comparecer à Solenidade de Posse, conforme prevê o parágrafo único do artigo 17 do Regimento Interno daquela Entidade, o poeta foi empossado por ato solene da Presidente, Senhora AMENAIDE BANDEIRA RODRIGUES, em 10 de agosto de 2013, e seu Diploma de Membro Correspondente, foi remetido através dos Correios.

“Com a palavra criaram-se e destruíram-se mundos, selaram-se destinos, elaboraram-se ideologias, proferiram-se maldições e blasfêmias, expressaram-se ódios, mas também com ela – e só com ela –, em tantos e tão desvairados povos, falou-se de amor, consolaram-se aflitos e elevaram-se preces ao seu Deus. Ela tem sido, através dos tempos, a mensageira do bem e do mal, da alegria e da dor...”

CELSO FERREIRA DA CUNHA (1917 – 1989)
Patrono da Cultura do Município de Teófilo Otoni/MG
Lei 5.522, de  27/12/2005 e Patrono Oficio da Academia de Teófilo Otoni




sexta-feira, 26 de julho de 2013

PRÊMIO LUSO-BRASILEIRO MELHORES CONTISTAS 2013









Ao lado do ator Maurício Mattar, Mestre de Cerimônia,
e da Presidente da LITERARTE, Izabelle Valladaares.

A mulher que sonhava em cortar os cabelos
(Conto selecionado ao Prêmio Luso-brasileiro Melhores Contistas 2013)
                                                                                                                                                    
            Tudo aconteceu num diminuto aglomerado de casas encravadas numa porção de terra árida dos sertões nordestinos; o nome do lugar esvaiu-se da memória; o estado, também me é duvidoso, conjeturo entre dois ou três, mas, certezas mesmo, não me são precisas. Deixemos, então, de lado os pormenores; atenhamo-nos às personagens forjadas nessa seara de tradições ligadas à rica religiosidade de um povo simples; na fé e nas crenças populares e no machismo do homem rude que, embora numa época e região de onde não se tinha muito que prover, não abria mão do título de provedor da família. Levemos em conta que eram tempos difíceis, e motivos para acreditar em promessas e simpatias encontravam terreno fértil nesse “mundo de meu Deus”, onde o sol batia forte na moleira e cacunda da gente sofrida.
“Padim Padi Ciço”, Antônio Conselheiro e Lampião eram personalidades afamadas, fossem pela representatividade de força religiosa, carisma de líderes espirituais ou reputação de cangaceiro sanguinolento. A verdade é que em qualquer das vertentes, arregimentavam-se seguidores, defensores e ferrenhos opositores.
            O acima exposto serve apenas de ambientação do cenário aonde veio ao mundo Maria Clarissa, nascida prematuramente aos sete meses de gestação.
Na madrugada em que, sem aviso prévio, Clarissinha, ou, simplesmente, Sinha, resolveu não esperar que se completassem os nove meses, era noite de lua cheia. Nasceria, de ímpeto, naquela fase lunar, entre contrações repentinas.
O silêncio noturnal acompanhava-se de certo ar fantasmagórico, entrecortado, de quando em quando, pelo som rouco de rasga-mortalhas e por regougares de raposas à espreita de galinheiros; tais ecos somaram-se, de repente, aos gritos de dor de uma parturiente despreparada a dar à luz a filha esperada somente para dali a oito semanas.
A parteira mais próxima distava duas léguas. Quando esta chegou, buscada às pressas pelo pai, montados em lombos de mulas, o bebezinho já se debatia e choramingava nos braços da mãe. Era tão pixototinha, a ponto da roliça senhora não disfarçar o espanto e, utilizando-se da experiência ao longo dos anos de profissão e com um ceticismo visível no olhar, peculiar ao que a situação remetia, recomendar que se apreçassem em batizá-la para que não morresse pagã. Ao passo em que fazia tais advertências, sem utilizar-se de meias palavras, apressava-se ao recolhimento dos restos do parto e assepsia do delgado corpinho da criancinha.
Foi nesse momento que a menininha, pouco maior que a palma da mão do pai, fora entregue, sob promessa, às graças de Stª Clara, primeira Franciscana e fundadora da segunda Ordem Franciscana, a das Clarissas. Dessa intervenção veio o nome escolhido.
Num ato de amor à pequenina, imbuindo-se de muita fé na santa de devoção, a mãe prometeu, se sobrevivesse, sua filhinha jamais teria os cabelos cortados.
Correu à boca miúda pelas redondezas, que o rebento se deu avexadamente pelo fato de sua mãe não ter realizado o desejo de comer rapadura com carne de caça.
Passado o susto e seguidas as recomendações para um bom resguardo, especial atenção foi dispensada a alimentação da lactante; nos primeiros dias, canjas e escaldados de capão, frangos caipiras cevados pra esse fim, faziam-na lamber os beiços. Dizem não haver melhor alimento que revigore mulher parida.
Maria Clarissa, aos poucos, ganhou peso e cresceu saudável fazendo da sua mãe, cada vez mais devota, muito grata a Deus e a Santa Clara, renovando, a cada aniversário, a promessa feita.
O tempo passou, a menina tornou-se uma linda moça e ficou conhecida em todo o sertão como a “Menina de Stª Clara” e, mais tarde, a “Moça dos cabelos de trança”. Os fios se alongaram tanto, que pra facilitar-lhe a vida, mantinha-os em tranças enrodilhadas à cintura. Só não ganhou o apelido de “Rapunzel dos Sertões” porquanto o conto de fadas, dos Irmãos Grimm, não chegara àquelas terras. Às vezes, fazia das tranças, uma acolchoada rodilha a proteger-lhe a cabeça enquanto equilibrava na moleira as latas d’água que buscava diariamente na cacimba.
Com o curso natural da vida, Sinha se casou e teve filhos. Tempos depois seus pais faleceram, mas a promessa manteve-se de pé, embora, às vezes, a incomodasse; havia dias em que acordava com a cabeleira totalmente desgrenhada, pra desembaraçá-la, horas eram despendidas.  
            Anos mais tarde a família mudou-se pra pequena cidade da qual seu povoado era distrito, em lá chegando, a vontade de ter os cabelos cortados só aumentava, mas como quebrar a promessa? Não incorreria em pecado? Uma vez feita pela sobrevivência, não seria punida com a morte?
            Certa ocasião, um caixeiro viajante, amigo do seu marido, de passagem pela cidade, hospedara-se em sua casa, deixando cair em suas mãos, trazida das andanças pelos maiores centros, uma revista de moda, dessas com fotos de mulheres de cabelos bem penteados, estopim pra que sua vontade mudasse pra desejo ardente, um sonho a ser realizado, a ponto de externar em palavras como queria o corte; ouvindo do marido, pra sua frustração, a expressão proferida em tom autoritário: – muié minha num corta cabelo, inda mai de promessa feita, pra isso acuntecer, só pu cima do meu cadávi.
            Afoita ao desejo de se livrar do mafuá de fios e tranças, resolveu apelar à própria Stª Clara, se necessário, pagaria outra promessa, mas que lhe revelasse um sinal, através do qual pudesse se livrar da promessa de nunca cortar os cabelos sem consequências danosas a sua vida e fé.
            Passados poucos dias, o marido de Maria Clarissa sofre um acidente, atingido, na fronte, por violento coice de jegue empacado, veio a falecer. Enquanto se “bebia o morto”, compareceram ao velório parentes e amigos vindos de todo o sertão. A pergunta que não calava era: onde está Maria Clarissa, por que não a vemos ao lado do caixão?
            Somente após o sepultamento Clarissa reaparece ostentando novo visual, enquanto velavam o corpo, viajara pra cidade vizinha, onde havia um salão de beleza para, enfim, cortar os cabelos.









quinta-feira, 9 de maio de 2013

SINAL DE CHUVA



SINAL DE CHUVA

As primeiras notícias de chuva
Enlevam-me a terras distantes
E nesse êxtase envolto sinto as solas dos pés
Pisar o solo natal que se enfeita de natureza

Ao pé do mourão o umbigo brota
Aprofundando as raízes que se alimentam
Do cheiro da terra molhada
Sob a rega que se faz do orvalho serenado

As preces a São José
Enfim atendidas
Semeiam esperanças novas
E o chão rachado bebe os primeiros pingos

A poeira calmamente se assenta
A vaca magra num esforço pela vida se levanta
E no vento que acaricia mais suave
Ecoa o pio d’uma rolinha afoita

O mandacaru esbanja majestade em flor
E seu verde não é mais solitário
N’algum galho de jurema da caatinga que se verdeja
Um ninho começa a ser trançado





Texto e fotos: by AMALRI NASCIMENTO

*Ninho de uma rolinha citadina, 
construído nos arbusto de um pé de ficus, 
na minha varanda.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Tarde de domingo

Imagem: http://my.opera.com/ammbarleon/albums/slideshow/?album=10869112#



                                                                     Imagem: Web

Tarde de domingo


Horas lentas e vazias flanam na
Inconsistência de sentimentos rabiscados.
Tentativas de versos que ousaram alarem-se boca afora e,
Natimortos sucumbiram a pontas quebradas de lápis.
Incompletos jazem atapetando o chão do quarto.

A atmosfera exala o acre do ar enclaustro por trás das portas e janelas fechadas
Espiralando filetes de fumaça que se anuviam sob um teto inquisidor.
Cigarros que não foram tragados até o fim
Ostentam corpos carbonizados nas bordas sujas do cinzeiro
A espera de uma lufada que espalhe suas partículas no tempo e espaço.

O crepúsculo que se deita no ocaso
Insiste transluzir a vidraça
Para morrer ante a opacidade da cortina.
O vento farfalha as folhas lá fora e traz para dentro sons que parecem
Ecos propagados dos arcanos da memória em mensagens codificadas.

O etílico do álcool consumido condensa-se no hálito bafejado
Mantendo-se suspenso na penumbra sorrateira cortada pela luz fosca do abajur.
Sobre a mesa de cabeceira, um livro fechado antes da última página,
Faz companhia a um copo emborcado e a uma garrafa vazia.
No chão, ao lado de chinelos rotos, um porta-retratos virado,
Intenta esconder a imagem que motivara toda a melancolia vespertina.

De um campanário distante ressoam notas da hora do ângelus,
E na contramão de um coração de consistência diamante,
A pele febril arde evaporando gotas de suores forjadas no tártaro,
Onde vagueiam perdidas almas querentes...
Nas veias, sangue quente, jorra feito célere torrente.
Pra despertar da letargia, é hora de levantar e passar um café bem quente!
(Amalri Nascimento)

Imagem: Web

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ausência


Ausência

Meus dentes cerrados
Mordem as cismas
De palavras que teimam
Alarem-se em pensamentos frouxos...
Levado por devaneios tortos
Vagueio por labirintos amorfos
Entorpecendo-me na letargia inerte
Atadora de sentimentos vãos...
A ansiedade qual zinabre oxidante
De superfícies expostas
Isola minh’alma aprisionando-me em casulos
De suplícios querentes...
A angústia qual ferrugem degradante
De superfícies submersas
Incrusta meu coração
Arritmando os movimentos
Em débeis ribombos de sôfrego sofrimento...
Embriagando-me dos aromas notívagos
Volitantes nos sopros da maresia
Que invadem o quarto
Silenciosamente e com pés de prata*
As sombras deslizam para dentro*
Intentando fazer-me enclaustro
As cores das coisas se esvanecem cansadamente*
Para enfim obscurecido o ambiente
Prostrarem-se nos arcanos da imensidão vazia
Que se faz a tua ausência

* Oscar Wilde / O Retrato de Dorian Gray (Romance, p. 126) / tradução de Oscar Mendes / Abril Cultural, 1981 (alterado o tempo verbal).







segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Entardecer nas pedras do Arpoador



Entardecer nas pedras do Arpoador

Horizonte nu
Tão longe
Que mãos não alcançam
Tão perto
Que corações se deleitam
Com o vermelhecer laivado de arrebóis

A noite esmaecendo o dia
Vestindo-o de sombras rasteiras
Sob firmamento iridescente
Alça lembranças
No sibilo de ventos cortantes
Até que se percam
No dardejar de olhares apaixonados...

Ocaso de crepúsculo espetacular
Bruxuleando réstias em leito manso
Vai e vem de ondas tranquilas
A espraiarem-se n’areia enquanto
"Vago na lua deserta das pedras do Arpoador”


(Texto e fotos: Amalri Nascimento)





quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Como NARCISO

Imagem: Narciso de Michelangelo Caravaggio (Web)


Como NARCISO

Debruçado sobre o espelho d’água,
Não é o meu reflexo que vejo,
Mas, o teu rosto, que almejo,
O teu corpo, que desejo...
Não contentado com a tua imagem, apenas,
Toco o espelho e, de assalto,
Uma difusão de ondas
Desfaz a miragem.
Mergulho!
Talvez afogado,
Como Narciso, renasça em flor,
Perpetuando, assim, o nosso amor.






 Imagens: Flores de Narciso, colhidas na Web

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